- ARLEKINOS -

de Mário Gandra

Depois da campanha de As Aventuras de Rapinggel (2020|2021), surgem os Arlekinos, que se constituem numa coleção de duas centenas de desenhos.

A palavra do título deste conjunto resulta da aglutinação do nome Arlequim (apócope da última sílaba) com o elemento kino (do grego kinein – movimento, pôr em movimento).

Evoca-se, como agente desencadeador do processo criativo, a personagem da commedia dell’arte, Arlequim, um dos protagonistas na estória do triângulo amoroso Arlequim – Columbina – Pierrot (todos figurados na coleção). Uma das personagens mais glosadas daquela forma de teatro popular renascentista, Arlequim continua a manter a sua atividade rocambolesca na reprodução evocativa das suas aventuras originais, como vem mesmo tomando parte no devir de várias modalidades artísticas ao longo dos tempos. A estória e as suas personagens continuam a ocupar um lugar que se tornou cativo na cultura e na arte europeias, quer enquanto citação direta e visitação histórica do tempo do seu surgimento, quer como fonte inspiradora de novas criações, no palco, na prática dos mimos, na Literatura, nas artes visuais e noutras formas de expressão artística.

O carácter popular bem marcado destas personagens, as suas idiossincrasias arquetipais e as acidentadas aventuras e desventuras que foram vivendo, aparecendo em carnavais e outras festividades profanas, desafiando públicos em teatros e na rua, são características que podem explicar a longevidade da sua persistência até aos nossos dias.

Nas artes plásticas, foram numerosos os artistas que lhes dedicaram atenção e as animaram, em especial a Arlequim. Picasso, antes de ao Minotauro, fixou-se-lhe com bastante simpatia. Entre os portugueses, também Almada, para referir um dos mais conhecidos, não o deixa no esquecimento.

Quanto a Kino – quer aludir-se a movimento e a imagem em movimento – evoca-se a kino-glaz de Dziga Vertov e o Homem da Câmara, dir-se-ia, recriando uma meta-subjetividade do olhar que foi essencial para o desenvolvimento de toda a linguagem cinematográfica.

Inferências apreendidas das primeiras criações demiúrgicas arlekínicas permitiram, sugeriram e, por último, impuseram o neologismo onomástico que se estabiliza cedo no processo criativo e passa a condicionar, relativamente, não o engendramento automático da figura (quase sempre de aproximação antropomórfica ou zoomórfica), mas a sua aparência final. O xadrezado­/losangulado característicos da roupa de remendos de Arlequim torna-se emblema ou logotipo “de família”. É constante a postura em movimento (Kino). Cada boneco, mais humano ou mais bicho, interpreta, à sua maneira, o modo travesso característico de Arlequim, independentemente de género, orientação sexual, modalidade desportiva, profissão ou ambiência cultural de proximidade, enquanto personagem histórica, da lenda, dos contos, do quotidiano ou de dimensões mais próximas da pulsão libidinal que determina o automatismo inicial que desvirgina o papel.

A representação de cada Arlekino resulta do encontro da atividade do inconsciente através da expressão gráfica do gesto automático, inicialmente vazia de intencionalidade representativa, embora, nalguns casos, se tenha utilizado uma técnica chamada de “automatismo aplicado”, bastante usada por Picasso que a introduziu nas práticas de produção imagética automáticas, tendo sido aceite como prática surrealista. Desta forma, os Arlekinos, enquanto originados de automatismo gráfico, colocam-se fora da metáfora. O ato orgásmico generativo que determina a sua criação orgânica reproduz o nascimento cósmico universal e o de todas as criaturas.

A representação dos Arlekinos também mostra a captação de um momento na vida de cada um, fixando-o, de modo conexo com o que acontece na fotografia que congela para (quase) sempre o instante, ou tal como Míron soube fazer no bronze do seu Discóbolo, suspenso para sempre no preciso frame imediatamente anterior à explosão energética de todo o corpo do atleta que lançará o disco no espaço. Assim, o instantâneo simultaneamente desmente e indicia o movimento e confunde a perceção do tempo.

A série dos 200 Arlekinos propõe a discussão do tema Originalidade.

Se, como pensam os surrealistas, a obra é um produto do corpo e mente do artista, um seu prolongamento orgânico, vindo de um procurado (re)encontro com o ID, e se cada artista (como cada ser humano) constitui uma realidade única e irrepetível, cada obra realizada patenteia a sua individualidade que a diferencia de outras do mesmo autor e das de outros. Entendendo-se originalidade como uma taxa de (in)frequência referida a um contexto determinado, cada Arlekino é original por unicidade no contexto da obra do autor, no da série completa 200 Arlekinos, no de todas as imagens produzidas no universo. Desta forma, um só autor único produziu cada arlekino na sua unicidade própria, cada um revelando uma personalidade, ostentando uma postura determinada e indiciando o seu movimento instantâneo. E, assim mesmo, cada um e todos se congregando no universo onde estamos todos, ou num dos universos disponibilizados.

Se cada Arlekino é único, não deixa de ser possível verificar um conjunto de características comuns a todos os Arlekinos. Várias delas resultam diretamente da constância dos mesmos materiais e técnicas utilizados e, além disso, há um ar de família em comum que permite a perceção de um estilo próprio. Unidade e Diversidade são conjugadas como resultante do número de Arlekinos realizados, ressaltando-se em Originalidade, na relação quantitativa entre elas.
O conjunto de recursos e de regras criativas muito restritos configura uma unicidade conceptual e técnica, que permite evocar o princípio da Unidade. A multiplicidade de soluções gráficas e cromáticas evidenciada na utilização desses meios e técnicas oferece uma variedade de resoluções que pode expandir-se infinitamente, consoante a reverberação da combinatória de cada momento de criação, indica o princípio da Diversidade.

No que respeita ao processo criativo, atualiza-se consciência do seguinte:

– Os materiais utilizados – esferográficas, marcadores de vários calibres, de várias cores, nalguns casos, canetas-pincel (laranja e azul), sobre papel A5 de 110 g (indicado para esboçar) – influem nos modos de produção imagética, no traçar automático, na imposição cromática, no desenvolver das tramas e arabescos de preenchimento dos espaços interiores das figuras. Diferentes materiais para diferentes formas, cores e interações entre todos os elementos gráficos e visuais detetados no plano.

– Na geração do grafismo automático foram utilizadas técnicas surrealistas do traço quebrad­o/pontos de respiração, garatujas/novelos, simetria, e automatismo aplicado, de acordo com velhos ensinamentos do saudoso mestre Jorge Kleiman.

– É constante o impulso para o preenchimento exaustivo do interior das figuras (horror vacui) por sectorialização do espaço coberto por vários modos, sempre mais gráficos (tramas e paralelismos, arabescos) que imediatamente pictóricos, embora com consciência das temperaturas cromáticas.
Curiosamente, esta tendência para o preenchimento de todo o espaço para evitar o vazio, foi notada por Rui Mário Gonçalves como uma das características diacrónicas mais marcantes e idiossincráticas da Arte Portuguesa (escultura decorativa românica, manuelino, barroco).

– A figura do Arlekino é sempre rematada com linha de contorno fechado (ou quase), um cloisonnisme que pretende afirmar uma pregnância que se determina sobre o universo.

– Atualizando a consciência de que toda a arte é efémera, da apresentação final de cada desenho – realizado sobre folha de papel de cadernos que são vendidos com a indicação de que se destinam a esboços – mais do que ao grau de acabamento dos trabalhos, resulta uma ideia de um tempo que renasce em cada automatismo gerador de um novo Arlekino que se suspende no (quase) vazio. A definição conteudística do fundo é sempre uma construção elíptica que compete ao observador. Em si mesma, esta ideia traz o convencimento de que cada Arlekino (e por maioria de razões, o conjunto deles) possa desempenhar um papel artístico, o qual varia de acordo com quem se relaciona.

Há algumas categorias evidentes no conjunto, entre outras que talvez possam ser encontradas: animais, profissões, bailarinas, diabos, palhaços, artes marciais, bêbedos, desportos, monstros…

O início da criação dos Arlekinos foi um  tempo de confinamento, exigente de adaptação a pouco espaço e poucos recursos, sem ateliê, à mesa ou no sofá, mas contrariando o cancelamento e buscando a concretude da Liberdade em tempos muito conturbados, entretanto agravados com a expansão da guerra em várias latitudes.

Esta Exposição, apresentada em Flores de Beirute, por proposta de Ana Rovisco Gandra, é organizada, na sua ordem e localização das peças no espaço, aleatoriamente, ou melhor, ao acaso, ficando a cargo dos visitantes o encontrar de lógicas e curiosidades existentes na coleção.

Mário Gandra – 2024